
Antimatéria
Por José Bento Ferreira
Texto crítico para o catálogo da mostra
"Estações" no Centro Cultural São
Paulo, 2007.
Alice Shintani apresenta um verdadeiro
estudo sobre as relações entre cor e desenho.
Os quadros são formados por grandes regiões
de cor. A divisão entre as cores não é
uma linha desenhada com a mão, mas uma linha desenhada
pelas cores, ao mesmo tempo ínfima e definitiva,
sutil e decisiva.
A escala dos quadros não é sobre-humana nem
diminuta, corresponde exatamente ao campo visual do espectador.
Uma vez que as regiões de cor livremente se tocam,
sem ser separadas por contornos, parecem flutuar pelo espaço,
como as ninféias de Monet. Mas as ninféias
flutuavam pelo rio. Embora a imagem se diluísse nas
tintas impressionistas, ainda é do suave deslizar
da forma sobre o fundo que se tratava. Os quadros de Alice
Shintani são ninféias sem rios, ou rios de
ninféias. Por isso temos a impressão de estar
diante de algo muito maior do que aquilo que estamos vendo.
Quando essa espécie de enquadramento enfoca representações
figurativas da realidade, como as ninféias, ou bailarinas
de Degas, não há dúvida quanto ao que
seria o prolongamento do espaço. Quando se trata
de formas geométricas, como em Mondrian, por exemplo,
pode-se dizer o mesmo: não há mistério
sobre aquilo que não se pode ver. A estratégia
de Alice Shintani é suspender o juízo quanto
a quaisquer afirmações que se pudesse fazer
sobre aquilo que não se vê, mais ou menos como
o que em filosofia se chama de atitude cética.
Por conseqüência desse ceticismo estético,
as relações entre as formas são permeáveis
e permissivas: se uma enorme região azulada domina
quase toda a superfície e espreme para os cantos
as regiões rósea e ocre, isto não significa
necessariamente que a azulada seja preponderante. Pelo contrário,
ela pode ser vista como uma zona anódina ao lado
de outras mais palpáveis. O domínio “territorial”
da tela não corresponde à preponderância
visual. O desenho entre as cores, que dá forma a
essas regiões, pode passar a impressão de
que as cores que ocupam espaços menores, em geral
mais vivas, representariam regiões maiores no prolongamento
imaginário do espaço. Aquilo que não
se pode ver então talvez seja muito maior do que
aquilo que se vê.
Com isso a experiência pictórica adquire um
caráter ilusório, mas não ilusionista.
O ilusionismo, nesses termos, seria uma promessa de harmonia,
como a Dança de Matisse. As relações
propostas por Alice Shintani estão aquém da
harmonia e da dissonância. Limitam-se a certa indiferença,
daí a ausência de contornos nítidos
em torno das formas grandiosas. As cores de Matisse harmonizavam
a forma humana, corpórea e orgânica, com os
elementos arquetípicos da terra e do céu.
As formas de Alice imitam grandiosos elementos mas suas
relações sutis demonstram que são vazias
como bolhas de sabão.
O uso da tinta de parede em lugar dos pigmentos tradicionais
contribui para essa impressão de imaterialidade sem
a qual a pintura de Alice Shintani tentaria definir as formas
e impor alguma ordem às coisas, como os grandes mestres
modernistas. Essas formas e cores não prometem nada,
não diferem materialmente da tinta que colore as
paredes sobre as quais estão penduradas, mas paredes
pintadas são sólidas realidades sobre as quais
não paira sombra de dúvida. Pinturas duvidam
de si mesmas.
José Bento Ferreira, março de 2007.
Texts:
Ecologias do Olhar | Juliana Monachesi [portuguese]
Essay on solo exhibition "Alice Shintani, Ether" at Galeria Marcelo Guarnieri, Ribeirao Preto, Brazil, 2008
Entre
o silêncio e a dissonância | Fernanda Albuquerque [portuguese]
Essay on solo exhibition "Alice Shintani, Paintings" at
Paço das Artes, Sao Paulo, Brazil, 2007
Quimera | Guy Amado [portuguese]
Essay on solo exhibition "Alice Shintani, Quimera" at Galeria Virgílio,
Sao Paulo, Brazil, 2007
Antimateria | José Bento Ferreira [portuguese]
Essay on solo exhibition "Alice Shintani, Estações" at Centro
Cultural São Paulo, Brazil, 2007
On Atari Series. An interview to Gee Magazine | Oliver Klatt [english]
©
alice shintani, 2003-2008. all rights reserved.