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Pintura como Expansão
Por Felipe Scovino

Texto crítico sobre a mostra "Sinopse" na Galeria Mercedes Viegas, Rio de Janeiro.

Contemplando a pintura de Alice Shintani, resolvi escrever esse relato para os desacreditados. Apesar da morte anunciada de um corpo que ninguém viu o cadáver (como é a pintura), nunca fui um pessimista. Ademais, posso enumerar um pequeno corpo de qualidades para a permanência da pintura como meio de experimentação. Um deles é o risco, aqui colocado como situação-limite que é elaborada, desafiada e proporcionada pelo artista ao circuito de arte. Trabalhos que operam numa fronteira onde o sensível e o inesperado podem se configurar numa potência com a qual é impossível medir. A pintura de Shintani, portanto, habita esse território. Na série Sinopse, a artista opera com a minimalidade: com uma economia de gestos, as linhas em suas pinturas criam espaços que estão insatisfeitos com a sua própria condição de serem pinturas. Não estão confortáveis com o limite da moldura e desejam o exercício livre do espaço. Confundem-se entre traços e manchas, no sentido em que pertencem ao fluxo. Nessa referida economia, Shintani impregna suas pinturas com movimento; em constante trânsito, sejam manchas ou grids, as obras lutam para não serem apenas mais uma imagem, em um tempo em que vivemos saturados e absorvidos pela mídia. Sinopse aproxima-se de uma pintura em vertigem: é como se o seu compromisso com a invenção estivesse fundado em um constante desmoronamento, como se a pintura morresse a cada minuto para que no seguinte surgisse um novo estado de representação. Nesse sentido, isto também significa que Shintani teve a liberdade de direcionar o problema da pintura sem sentir o fardo diário de ter de justificar sua existência. Situado em um interstício entre a delicadeza e a suavidade, Sinopse ressalta que o exercício da linha pode se configurar em poucos traços ao mesmo tempo em que emana uma variável substancial de discursos poéticos. Na relação de escala entre obra e espectador, os fragmentos de espaço capturados pela artista criam uma nova rede de interlocução e aparição: no lugar de se entrincheirar em um relativismo sem fim, a pintura de Shintani se funda no imprevisível e o assume, expondo-o. Naquele recorte de espaço, estão lá as intenções e as escolhas, as decisões e as tomadas de posição que se colocam como motor de expressão da pintura e como possibilidade de resolução dessa imprevisibilidade. Nesse jorro de interrogações, Shintani evidencia que o valor do prazer do procedimento pictórico é a experimentação.

Felipe Scovino, maio de 2010.
 


Texts:

Computer Games and Phantasms | Stefanie Hessler, 2011

Pintura como Expansão | Felipe Scovino, 2010

Morangos | Alice Shintani, 2009

Alice Shintani | Fundação Iberê Camargo, 2009

Quimera | Paulo Sérgio Duarte, 2009

Entrevista | Jornal NippoBrasil, 2009

Ecologias do Olhar | Juliana Monachesi, 2008

On Atari Series. Interview to Gee Magazine | Oliver Klatt, 2008

Entre o silêncio e a dissonância | Fernanda Albuquerque, 2007

Quimera | Guy Amado, 2007

Antimateria | José Bento Ferreira, 2007



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