alice shintani
alice shintani |
home | portfolio | cv | texts | contact



Morangos
Por Alice Shintani

Quando nos mudamos para a chácara do Raffo (bairro de Suzano), foi um alívio. O lugar tinha eletricidade! Até então tinha acompanhado meus pais no reconhecimento a dois ou três outros sítios, acho que em Jundiapeba ou Itaquaquecetuba. Eram lugares com ofurôs bem estranhos, escuros, de imigrantes japoneses que já tinham ido para melhor, e ficava me perguntando como é que iria ser a vida sem geladeira (pois eu ainda desconhecia a estória da refrigeração a querosene, ou mesmo do ferro a carvão…). E o pior, como é que iria negociar a cozinha com os fantasmas dos velhos proprietários, na base do lampião.

No Raffo, tirando o detalhe da luz, como nas demais chácaras a estrutura que encontramos havia sido construída por outra família, bem mais niponicamente original que a nossa. Tinha sido uma granja, que havia virado plantação de morangos. Meus pais tentaram prosseguir com os morangos, mas acho que faltou um pouco de algo para cuidar das frutas. Era necessário ficar sempre desbastando, passando chapinha e, de tempos em tempos, cobrir os canteiros com plástico preto. E eu achava meio estranho a maneira como a gente tinha que montar as cumbucas: colocar os morangos pequenos e os deformados por baixo e os grandes, bonitos só na camada de cima. O que virou é que, pouco tempo depois, passamos a despachar alface, agrião e couve para os F-4000 dos meus tios feirantes e para o ceasa.

Mesmo rápida - durou uma estação a empreitada com os morangos - foi praticamente a única experiência vermelha da nossa temporada no Raffo. Houve algum momento depois uma tentativa com tomates, mas meu pai, pelos olhares, acho que teve um acidente grave com agrotóxicos e os tomates foram definitivamente abortados.

Ademais, tomates não eram morangos, e morangos eram doces, mesmo que a gente não pudesse comê-los, pequenos ou grandes, sob o risco da sempre iminente intoxicação.
 


Texts:

Computer Games and Phantasms | Stefanie Hessler, 2011

Pintura como Expansão | Felipe Scovino, 2010

Morangos | Alice Shintani, 2009

Alice Shintani | Fundação Iberê Camargo, 2009

Quimera | Paulo Sérgio Duarte, 2009

Entrevista | Jornal NippoBrasil, 2009

Ecologias do Olhar | Juliana Monachesi, 2008

On Atari Series. Interview to Gee Magazine | Oliver Klatt, 2008

Entre o silêncio e a dissonância | Fernanda Albuquerque, 2007

Quimera | Guy Amado, 2007

Antimateria | José Bento Ferreira, 2007



© alice shintani, 2003-2008. all rights reserved.