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Quimera
Por Guy Amado
Texto crítico para a mostra "Quimera", realizada na Galeria Virgílio, São Paulo, em agosto de 2007. |
A um primeiro olhar, é
difícil ou improvável pensar que a experiência
de imersão promovida por Quimera no espaço
expositivo da Virgílio possa ter sido gerada a partir
de uma situação relativamente tensa, de um
impasse que Alice Shintani experimenta em sua produção.
Ou, mais especificamente, na relação com sua
produção a partir das demandas – expositivas,
institucionais, de mercado, etc. - a que esta começa
a ter que responder. Nada muito extraordinário na
trajetória de uma jovem artista, mas que o alto grau
de rigor de Alice para com o próprio trabalho impõe
uma série de reflexões mais cuidadas. E nesse
sentido o título pode ser de certa forma emblemático
– embora não explicativo - das pulsões
que alimentaram essa mostra.
Realizada – quase "aplicada" - diretamente
sobre o piso e paredes da galeria, a, digamos, pintura-instalação
que dá nome à exposição distancia-se
daquela fisionomia mais silenciosa e "agradável"
característica da produção com que
a artista vem ganhando visibilidade de tempos para cá.
Envolvendo o ambiente num registro ambíguo, quase
alegre mas amortecido pela paleta cromática áspera,
a pintura ainda assim vibrante de "células-escamas"
– livremente derivadas de gravuras japonesas –
não induz a uma leitura clara a respeito de sua existência,
embora a intensidade de tal presença pareça
conter algo de afirmativo em seu bojo.
Nessa desconcertante e algo anódina padronagem de
matizes orgânicos que reveste e contamina o espaço,
a mencionada origem turbulenta da proposta se revela aos
poucos. A natureza incerta do trabalho conduz a uma experiência
de estranhamento. De que diabos se trata essa "pintura-ocupação"?
Seria ela imbuída de alguma pretensão na linha
da site-specificity, ou quem sabe visa aludir a
certa tradição ornamental? É pintura
de fato? Talvez uma pintura que não é...
O estranhamento é deliberado, sem dúvida:
mais que isso, apresenta-se como elemento estrutural na
prática da artista, tomada que ela está de
um ímpeto em investigar e repensar certos aspectos
definidores do estatuto pictórico na contemporaneidade,
problematizando no próprio trabalho a "verdade"
canônica de algumas convenções.
Interessa a Alice desestabilizar algumas certezas e reducionismos
em torno da linguagem pictórica. De como a pintura
pode ser instrumentalizada por discursos e leituras esquemáticos,
numa chave interpretativa que não raro compromete
ou esvazia a natureza de sua própria razão
de ser.
A opção por recorrer agora a uma nova solução
plástica fala um bocado do processual da artista.
A escala expandida inédita, a tinta aplicada diretamente
sobre a arquitetura e certa "vontade ambiental"
convergem para aspectos, ou anseios, já percebidos
em sua pintura "convencional": o raciocínio
instalativo, o modo de pensar a relação de
seus quadros com o espaço, a boa e velha tinta
suvinil, a convocação do público
ao exame mais atento do que se passa em suas telas, para
além dos "confortos da forma" que se delineiam
indolente e ardilosamente em suas superfícies, bem
como da suposta "vocação moderna"
das mesmas – como uma apressada leitura formal pode
sugerir. Está tudo ali, subjazendo àquela
espécie de epiderme estranha, embora certamente em
registro mais velado.
Todo esse jogo de [falsas] aparências e contrapontos
ganha aqui uma nova escala, e não apenas do ponto
de vista literal. Por outro lado, a proposta imersiva em
curso com Quimera não pretende oferecer
uma leitura fechada, objetivamente coesa e ilustrativa de
tais pulsões. O projeto se apresenta mais como fruto
de uma inquietação pontual, podendo ou não
sinalizar novas possibilidades na práxis da artista.
A conjunção de momento e local propícios
só fez potencializar a empreitada. Realizado em um
modus operandi não de todo dominado por Alice, como
tal o trabalho se oferece mais ao risco; o que é
sempre um fator estimulante, indicativo de frescor.
Guy Amado, julho de 2007.
Textos:
Ecologias do Olhar | Juliana Monachesi [portuguese]
Essay on solo exhibition "Alice Shintani, Ether" at Galeria Marcelo Guarnieri, Ribeirao Preto, Brazil, 2008
Entre
o silêncio e a dissonância | Fernanda Albuquerque [portuguese]
Essay on solo exhibition "Alice Shintani, Paintings" at
Paço das Artes, Sao Paulo, Brazil, 2007
Quimera | Guy Amado [portuguese]
Essay on solo exhibition "Alice Shintani, Quimera" at Galeria Virgílio,
Sao Paulo, Brazil, 2007
Antimateria | José Bento Ferreira [portuguese]
Essay on solo exhibition "Alice Shintani, Estações" at Centro
Cultural São Paulo, Brazil, 2007
On Atari Series. An interview to Gee Magazine | Oliver Klatt [english]
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