
Entre o silêncio
e a dissonância
Por Fernanda Albuquerque
Texto crítico sobre a mostra "Pinturas" na Temporada de
Projetos 2007-2008 do Paço das Artes.
Há um quê de dissimulação nas
pinturas de Alice Shintani. Se à primeira vista elas
parecem animadas por uma beleza suave e desinteressada,
como se pretendessem se passar por imagens dóceis
ao olhar, uma observação mais detida logo
substitui a impressão inicial por uma hesitação.
Para além dos tons delicados e das formas vagas,
há algo ali que não se deixa apreender. Uma
dissonância silenciosa cujos vestígios apenas
conseguimos entrever.
Suas pinturas exibem uma espécie de economia. Poucas
cores dão corpo a poucas formas que não parecem
produto de grande quantidade de matéria ou ação.
É como se as telas fossem cobertas por uma tênue
camada de tinta, em três ou quatro esmaecidas versões,
aplicadas mecanicamente de modo a ocultar vestígios
da mão. Mas o que parece escassear mesmo nas obras
da artista é qualquer tentativa de afirmação.
Não se trata de uma pintura assertiva. Suas telas
apresentam-se, antes, como possibilidades – como se
a qualquer momento seus arranjos fluidos e algo abatidos
pudessem sofrer algum tipo de reconfiguração.
É exatamente aí que reside a sua força.
Numa despretensão afirmativa que parece respeitar
um estado de indagação. Ou numa languidez
que é, antes, fruto de uma intensa investigação.
Embora ostentem uma aparência um tanto mecânica,
como se produzidas com as mesmas técnicas usadas
para pintar um carro ou uma geladeira, as telas de Shintani
guardam processos da pintura tradicional. À exceção
do material utilizado, tinta de parede, as cores são
preparadas no ateliê – o que, em parte, explica
a sua estranha ambigüidade – e aplicadas na tela
por meio de pincéis, sem qualquer recurso que auxilie
a artista a artificializar seus trabalhos, como o uso de
máscara, rolo ou aerógrafo. São procedimentos
manuais que acabam por forjar um efeito impessoal, ainda
que este não se realize completamente. Até
mesmo os ensaios da artista, responsáveis pelo acúmulo
de camadas e mais camadas de tinta, são dissimulados
pela alta porosidade da tela, capaz de absorver boa parte
do material depositado. Daí a aparência flat
de sua pintura.
O curioso é que, ao invés de reforçar
uma superficialidade – como na pintura superflat
de Takashi Murakami e de uma boa leva de jovens artistas
japoneses surgidos no final dos anos 1990, com quem a produção
de Shintani não deixa de flertar –, o achatamento
de planos cria um efeito diverso. Dispostas em conjunto,
suas telas parecem reivindicar o espaço tridimensional,
ao sugerir uma espécie de ambiência, como se
a prolongar suas cores e formas. Pois essa sugestão
espacial foi levada às últimas conseqüências
em um projeto recente, quando a artista cobriu de pintura
o chão e as paredes de uma galeria, criando o que
se pode chamar de uma instalação pictórica.
Mais uma vez, um contraste entre procedimento e resultado
– como na fartura que se apresenta escassa, na feitura
artesanal de aparência mecânica ou na intensidade
que se reveste de languidez – contribui para gerar
a impressão de que há algo, na pintura de
Alice Shintani, que não se deixa cercar. Consciente
ou não, a opção pelo contraste talvez
seja fruto da impossibilidade afirmativa que suas pinturas
revelam como que a reiterar o espaço da arte como
espaço da dúvida e da indagação.
Fernanda Albuquerque, julho de 2007.
Texts:
Pintura como Expansão | Por Felipe Scovino, 2010
Morangos | por Alice Shintani, 2009
Alice Shintani | por Fundação Iberê Camargo, 2009
Quimera | por Paulo Sérgio Duarte, 2009
Entrevista | por Jornal NippoBrasil, 2009
Ecologias do Olhar | por Juliana Monachesi, 2008
On Atari Series. Interview to Gee Magazine | by Oliver Klatt, 2008
Entre o silêncio e a dissonância | por Fernanda Albuquerque, 2007
Quimera | por Guy Amado, 2007
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